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Grátis
Fiz este sem custar nada
Um brinde sem senso de decadência
Um poema bruto, feito numa ciência:
Se hoje poetas vendem Omo, ontem gastavam ócio.
(Sempre fomos pobres ou quase, tristes ou semifelizes, gastos ou tolhidos.)
A linhas do fim, com aspereza,
Cavo na limitação um bem, outra certeza:
Mais ainda na morte estamos aquém
Sem.
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Véspera
Com a camisa, tu ganha a mancha
No copo vazio, a sala de espera do porre
E, no meu sorriso, um boleto de foda-se.
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Como
Como lidar com o mal tremendo?
(Não aquele que rosna,
Não aquele que canta,
Mas aquele que reina
Nas moradas do abismo)
Como não ceder na urgência de ser?
E como erguer um estandarte?
Como ser pastor, como ser cordeiro fiel
Quando o medo ara em fogo
E no campo arde a brasa de novas covardias e novas traições?
Como não se enganar apontando?
Como não se culpar escapando?
Como o por quê? Como o como?
Como palavra?
E como saber fora de hora, no gabinete do depois?
Como não gritar, como se portar
Quando se carneia a infâmia em filés de silêncio?
Como ter um lado depois de sair do fundo?
Como não beijar carcaças?
Como não fazer das fardas espantalho?
Como não ter no pretérito pretexto?
Como não vingar?
Mas como falar em nome?
Como ser memória, como ser almoço de domingo
Quando a morte é mãe, pai e filha apertadas no trem?
Qual é o teto de um céu vazio?
Como ter casa? Como ser pedra?
Como ser vivo entre fantasmas?
Como não se encher de nada?
Como não ser abismo?
Um projeto de caveira um beijo mudo estoura
Num rosto sem mais rosto
E sai assim, além do silêncio, num sorriso sem ironia
Como quem tem pena do que sobra
Sem dar resposta.
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respulsarverbo
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Carcaça
Cava, olha aqui:
Depois da casca, veja se acha
uma marca de que alguém, algum dia,
habitou esta carcaça, magnífica
carcaça, carcaça que fala.
Se sua arqueologia fracassar,
Acione a furadeira, sem remorso do que remói.
Em caso de nada topar, dinamite o destroço, e
trate de fazê-lo com fúria. Aperte o botão
com cansaço trágico, numa homenagem ao
que entre nós havia de pólvora.
De onde? De que caverna remota, por
meio de que satélite, banda ou sintonia
opera este “eu” foragido, fugido?
Que ordens dá ele que a carcaça,
a mesma a escrever agora,
não sabe?
Exílio grave, exílio agudo
que se sabe fuga, mas sem saber do quê.
Era um orfanato? Uma casa infeliz?
Um hotel de estrada?
Exílio grave, exílio agudo
Exílio sem nota de origem
Exílio de mim, exílio do quê?
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No trigo
Nesta jaula, os tigres tristes tristes já não são mais
O domador do divã confia na chibata da química
E, de trigo em trigo tragado com fluoxetina,
Os tigres tristes viraram tigres bipolares
que tuítam e tomam Prozac.
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Fragmentos da Liga da Justiça Brasileira (5)
LUCAS CELEBRIDADE
Base: Luzilândia, Piauí
Origem: Foi presenteado com o Túrgido Mamilo de Eros, uma relíquia grega desaparecida há 2.500 anos. A relíquia, que teria chegado ao Piauí pelas mãos de um misterioso colecionador vindo da Ilha de Mykonos, concede ao portador poderes sobrenaturais.
Habilidades: Atordoar pessoas e animais (exceto calangos) com poses sensualizadas e emissões de luz-holofote em cascata
Características pessoais: Autoconfiança, superego de férias, persistência.
(Com @_Iglesias)
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Fragmentos da Liga da Justiça Brasileira (4)
SACI
Base: Cidade Roriz, Distrito Federal
Figura do folclore, o Saci agora é outra pessoa. Não mais circula manquitolando de redemoinho em redemoinho pelas florestas. Agora, anda com perna mecânica e prega nas cidades a Palavra do Senhor. Segue acompanhado por um antropólogo cicloativista, que garante conhecer os velhos modos e histórias do Saci.
O antropólogo assegura que o Saci existe desde tempos imemoriais, alternando períodos de ocultação e aparecimento. No seu penúltimo ciclo mais ou menos público, fez parte da Força Cascudo, programa secreto criado por Câmara Cascudo e patrocinado pelo presidente Jânio Quadros. Com parco apoio oficial e sem direito a FGTS, o supergrupo de elementais folclóricos atuou até o Governo Collor, quando foi fechado. Com o fim da Força Cascudo, sumiu o Saci por mais algumas temporadas. Isso até acordar, sem memória, num abrigo da Cidade Roriz, em 2002.
É esse Saci, o da amnésia, o do atual ciclo.
Num primeiro momento, perambulou sem destino e viveu de bicos no comércio popular. Foi encontrado por um headhunter da Fundação Cobra Coral, que carregava um dossiê na mão. Recebeu auxílio a redesenvolver seus poderes e passou atuar como fazedor de vento no ramo da mandinga meteorológica.
Por conta do longo período de hibernação, quedou acometido pelo grande mal da insônia. Ainda descapitalizado, sem recursos para assinar uma TV paga, o Saci passava madrugadas em claro, nas quais seu único entretenimento era assistir programas de igrejas evangélicas. Dessas madrugadas adveio a repulsa do Saci aos métodos empregados pela Fundação, da qual acabou se desligando.
Na sua jornada de reconstrução, virou cobaia no implante de uma perna cibernética e se tornou pastor. Hoje, prega uma espécie de cristianismo sarado.
Habilidades: Teletransporte por meio de redemoinhos, força extraordinária na perna cibernética.
Características: Fé, espasmos de travessura.
(Com @_Iglesias)
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Ode
O! Rise ye Children of Tchan
O! Rise ye Sons of Washington
Let the Genie err out of the bottle
While ye dance over the cap.
Hurrah for the Pharaohs of yore
Gather their diadems, follow their steps
Wander ‘round the Glory of old times past
‘Cause Joy cannot be ordinary.
Remain true, be bold
Swing wisely to the prophecy that is out:
When Jamaica sings, the Cayman shall step in
As Cinderella wakes, up also will be the Snake.
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Fragmentos da Liga da Justiça Brasileira (3)
COMPADRE WASHINGTON
Base: Salvador, Bahia
Origem: Compadre Washington é descendente de rebeldes malês. Por muitas décadas, seus ascendentes refinaram na clandestinidade a arte da evocação de fórmulas místicas, como forma de praticar uma religião perseguida. Apesar de ter rejeitado a fé de seus avós logo na infância, Washington domina com maestria as técnicas de enunciação aurática, mesmo que versando sobre temas profanos. Ao enunciar uma palavra num padrão de vibração específico, Washington é capaz de induzir aqueles a seu redor a estados alterados de consciência. Seu mantra mais conhecido é “Ordinária”.
Habilidades: Atordoamento pela palavra.
Características pessoais: Humor, desconfiança.
(Com @_Iglesias)
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Fragmentos da Liga da Justiça Brasileira (2)
VALESCA POPOZUDA
Base: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Origem: Valesca Popozuda trabalhava num posto de gasolina de Pilares, subúrbio do Rio de Janeiro. Foi lá que, numa manhã de janeiro, ela abasteceu a 4x4 dirigida por King Size, o Senhor das Terras do Rio de Janeiro, um dos emissários de CATRA na Terra. Falando em nome do Capa Petra do Funk, King Size comunicou à frentista que ela era A Escolhida, a avatar da elemental Gaia Potranca, conforme o cânone da profecia ancestral de COMBO. Valesca, afirmou King Size, estaria incumbida de relembrar a Humanidade do Funk Original, um estado edênico de harmonia e procedimento, muitas vezes intuído, mas nunca transcrito com exatidão pelas religiões tradicionais.
Após um primeiro momento de hesitação em relação ao chamamento, Valesca acolheu a mensagem de King Size, sob compromisso de um contrato de gravação. O “sim” de Valesca mudou tudo.
No Mosteiro da Chatuba, instrutores a serviço de CATRA revelaram a ela habilidades sobre-humanas ocultas da cintura pra baixo. Um implante de siliconium, variação do silicone desenvolvida nos laboratorios do Doutor Unger, deu a ela a plataforma e a arma para o uso de seus poderes recém-descobertos.
Habilidades: Surra de bunda, força sobre-humana nos membros inferiores.
(Com @_Iglesias)
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Fragmentos da Liga da Justiça Brasileira (1)
OTTO
Base: Recife, Pernambuco
Origem: Otto é o maracato-mor da Ordem do Armorial Etrusco, um clã de sambô poético fundado e integrado até agora só por ele mesmo. Dotado de força extraordinária e de um talento nato para a música, Otto sempre levou uma vida dupla: entre o som do mangue e o submundo do pancadaria armorial. Na Ordem do Armorial Estrusco, criada após reveses paralelos em sua carreira e na sua vida pessoal, Otto achou a síntese. Desde então, se diz imbuído de estabelecer as bases de uma nova filosofia.
Habilidades: Força extraordinária, resistência, atordoamento pela poesia aleatória.
Características pessoais: Humor, falação, imprevisibilidade.
(Com @_Iglesias)
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Raio negro
Se te fustiga o raio negro, ele ainda não chegou
Quando vem, corta de faca elétrica o último agora
E todo tempo ex-tempa.
Raio nem solo, nem nuvem: raio do mundo
De corrente, de grito, de expulsão
Sem encontro e apelo, raio que nada pararraia
Nem antena, ni montanha, non torre de igreja.
Raio com mira e geografia
De escala, de origem
Raio com mapa de topografia
E um topo na planície do apenas:
O morro do teu corpo só.
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Mendissombra
Aqui se recolhe a tua sombra
Quando é sol do meio-dia
No posto onde nenhuma de tuas tréguas te alcança.
Aqui, na esquina de riso e choro
Sob uma marquise de luz
Tua sombra pede esmolas com um cartaz escrito ‘me escondi’.
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Um canto das deserdadas legiões
Um canto das deserdadas legiões
Sem tempo para penteadeiras
Fixado num ponto.
(Numa sombra que é fuga
Estirado num carpete que é senha
À deita do abandono
Fiona Apple em Criminal.)
Um canto das deserdadas legiões
“A educação pela pedra” e o Capibaribe do único Cabral
Aqui late, escorrendo.
Um canto das deserdadas legiões
No úmido, o seco exaltado
No jogo, um zagueiro ao paroxismo.
(Canto num estádio vazio
Taça dum time em derrocada
Turno e returno no insistir.)
Um canto das deserdadas legiões
A voragem de querer o feio
De esnobar a estátua
Para fincar na falha.
Um canto das deserdadas legiões
Do pessimismo
Do pessimismo
Do pessimismo e da repetição.
(Da expectativa sem expectativa
Do pessimismo preventivo.)
Um canto das deserdadas legiões
Às rendições pequenas e grandes
Às pazes de humilhação
Às tréguas da vergonha
De uma diplomacia feral.
(Explode Haia.)